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A economia de Lula 4

Fonte: Folha de S.Paulo

Lula ganhou a eleição com um programa de preservação de programas sociais. Mas quase perdeu pela combinação de juros altos e inflação alta que, como vimos nas últimas eleições americanas, está destruindo a popularidade de governos ao redor do mundo no período pós-pandemia.

Para governar, Lula precisa equilibrar a preservação do que lhe fez ganhar com o combate ao que quase lhe fez perder.

Tem que segurar o crescimento da dívida pública o suficiente para que os juros caiam. Como o crescimento da dívida depende dos juros e juros mais baixos aceleram o crescimento, a relação dívida/PIB melhoraria pelos dois lados.

O lugar mais óbvio para começar o ajuste fiscal é com a privatização da Faria Lima.

Como mostrou Bráulio Borges em sua coluna nesta Folha de 30 de julho de 2026, só no ano passado a isenção tributária de ativos financeiros (LCA, LCI, CRIs, CRAs, debêntures incentivadas de infraestrutura etc.) gerou uma perda de arrecadação de R$ 32 bilhões. E mais: esses títulos subsidiados concorrem com os títulos da dívida pública, aumentando o quanto o governo precisa pagar para pegar dinheiro emprestado no mercado.

Se depois da correção deste e de outros gastos ruins (supersalários, excesso de grana para emendas parlamentares etc.) ainda for necessário cortar mais, devemos revisar os índices de reajuste e vinculação orçamentária de políticas sociais. A vinculação continuaria, mas de maneira mais sustentável e, de preferência, anticíclica: o gasto público brasileiro costuma subir quando a economia vai bem e cair quando vai mal, o oposto do que seria desejável. Sobra para a Selic toda a tarefa de regulação dos ciclos econômicos.

Essas mudanças preservariam o aumento real do salário mínimo e outras promessas de campanha de Lula.

Enquanto reduzimos a dívida, vale a pena discutir se não deveríamos torná-la menos sensível a aumentos da taxa Selic. Como notou a economista Monica de Bolle, a proporção dos títulos pós-fixados na dívida brasileira é bem maior do que no resto do mundo. Esse é um tema altamente técnico sobre o qual não me atrevo a opinar. Mas o debate é legítimo.

Finalmente, o economista André Lara Resende propôs mudar a maneira como os juros são fixados no Brasil. O debate é legítimo, foi realizado na semana passada e levou à conclusão de que, na sua forma atual, a proposta de Lara Resende é ruim.

Supõe um conselho econômico superpoderoso cuja criação seria politicamente impossível e provavelmente indesejável. Envolve o risco de uma crise cambial desastrosa que as reservas brasileiras, ao contrário do que supõe Lara Resende, não seriam suficientes para evitar. Ao contrário do que parecem pensar seus defensores de esquerda, a proposta de Lara Resende também exige um ajuste fiscal importante.

O lado bom do cenário atual é que os efeitos positivos da reforma tributária de Lula 3 devem começar a ser sentidos em Lula 4. E dessa vez Lula pode fazer algum ajuste já no começo do governo, sem o mesmo medo de que uma perda de popularidade momentânea o torne vulnerável a um golpe. Isso dependerá, é claro, da direita marginalizar o golpismo como deveria ter feito em 2023.

Não, não vai ser fácil. Mas pelo menos não dependeremos da turma que quebrou o Paraguai para nos tirar dessa.

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