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Brasilianista progressista, amigo de Hobsbawm, lembra como perdeu apoio do PT

Fonte: Folha de S.Paulo

[RESUMO] O britânico Leslie Bethell, um dos mais importantes pesquisadores da história do Brasil, completa 90 anos em fevereiro. Morador do Rio há quase duas décadas, ele relembra sua origem operária, a formação intelectual e os vínculos com o Brasil, onde vive o paradoxo de se definir como uma pessoa de esquerda, mas ser visto como um historiador conservador, defensor do Império Britânico. Bethell mostrou nos anos 1970 como a intervenção da Marinha inglesa foi crucial para pôr fim ao tráfico de escravizados, depois coordenou a prestigiosa coleção de história da América Latina de Cambridge e fundou, nos anos 1990, o Centro de Estudos Brasileiros na Universidade de Oxford, extinto em 2007 por desinteresse do governo brasileiro e de seus pares acadêmicos ingleses.

O brasilianista Leslie Bethell já não se lembra se foi ele quem ligou para o também historiador Eric Hobsbawm, ou se foi o contrário.

Em outubro de 2002, quando o candidato do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, afinal se elegeu presidente do Brasil depois de três sucessivas derrotas, Bethell e Hobsbawm moravam em Oxford, na Inglaterra. De lá, do outro lado do Atlântico, acompanhavam atentos as chances do petista. Foi a notícia da apuração de votos, e a perspectiva de vitória da esquerda, que motivou o telefonema.

Bethell, um dos principais pesquisadores em língua inglesa da história do Brasil, e Hobsbawm, um dos mais importantes historiadores do século 20, eram amigos desde os anos 1960. Filho da classe operária do norte da Inglaterra, Bethell militou, quando jovem, no Partido Trabalhista. Hobsbawm fazia parte, então, do grupo de historiadores marxistas que buscava renovar a historiografia britânica.

Origem social e afinidade ideológica ajudam a explicar por que, em 2002, os dois não apenas tivessem simpatia por Lula e pelo Partido dos Trabalhadores, mas torcessem abertamente por sua vitória.

"Nós nos falamos pelo telefone, assistindo à apuração", contou Bethell, recentemente. "Estávamos entusiasmados." A alegria era tanta que alguém propôs abrir um champanhe. "O Eric disse: ‘Vamos, venha aqui para casa’. Então peguei o carro e fui."

Segundo Bethell, ele e seu amigo comunista abriram não uma, mas duas garrafas de espumante, celebrando a tão esperada —e adiada— chegada de Lula ao Planalto. "Uma vitória para a esquerda! Uma vitória para o socialismo!", repetiam, ao fazer os brindes.

Foi então, lembrou Bethell, que o autor de "Era dos Extremos", aumentando a dose de autoironia que já temperava a festa, fez uma observação compatível com as décadas de conhecimento histórico acumulado entre os dois.

Adivinhando o que vinha pela frente, Hobsbawm olhou para o amigo e disse: "Agora, só nos resta esperar pela decepção".

Leslie Bethell fará 90 anos em fevereiro de 2027. Há quase cinco décadas, seu nome é automaticamente associado à história do Brasil, no mundo de língua inglesa. Em boa medida, o modo como pesquisadores, professores e estudantes norte-americanos e europeus compreendem o Brasil é, ainda hoje, impactado por decisões editoriais e institucionais tomadas por ele.

Nos anos 1970, quando começava na carreira acadêmica, Bethell foi convidado a organizar a prestigiosa coleção de História da América Latina de Cambridge, na qual fez questão de enxertar mais capítulos sobre o Brasil do que muita gente do mundo "hispanohablante" considerava razoável.

Enquanto ainda editava os livros derradeiros da coleção, entre as décadas de 1990 e 2000 —o último dos 12 volumes foi publicado em 2008—, Bethell criou e dirigiu, na Universidade de Oxford, o Centro de Estudos Brasileiros. Pela instituição, um instrumento de soft power e de projeção do Brasil na elite acadêmica mundial, passaram dezenas de intelectuais brasileiros.

Nas fotos e nos registros dessa época, que coincide com o ápice do bom funcionamento institucional da democracia brasileira, é possível vê-lo com frequência na companhia de membros da monarquia britânica, de diplomatas, políticos, empresários e homens de finanças. Bethell foi convidado para jantares e encontros oficiais nas visitas de Estado ao Reino Unido feitas por Fernando Henrique Cardoso, em 1997, e por Lula, em 2006.

Nessas ocasiões, em palácios e embaixadas, Bethell vez ou outra encontrava conterrâneos que faziam questão de notar sua origem geográfica e de classe, ainda perceptível, para ouvidos treinados, no modo como o historiador pronuncia determinadas palavras. "Em particular, um certo tipo de britânico de classe alta, atento a sotaques", explicou.

Bethell nasceu em uma família operária de Leeds, no norte da Inglaterra. O pai era soldador e caldeireiro na fábrica de locomotivas. A mãe, merendeira na escola primária local. Um avô (pai do pai) tinha sido metalúrgico, o outro (pai da mãe), trabalhara em minas de carvão.

Na casa em que moravam, a latrina ficava do lado de fora, no quintal. Na hora do banho, a mãe esquentava a água, e a família toda se lavava numa grande bacia de metal.

Concluído o primário, Bethell não conseguiu vaga na escola de maior prestígio da cidade, a "grammar school", que lhe daria acesso mais fácil à universidade. Mas se destacou tanto na outra escola, mais modesta, que o diretor sugeriu que o rapaz se candidatasse a uma vaga em Cambridge, que compõe, com Oxford, a dupla de universidades de elite do país.

O jovem Bethell recusou a ideia, argumentando que Cambridge era "posh" demais para ele (chique, mas também elitista; coisa de rico, como diria Michel Alcoforado).

"Eu achava que ia me sentir desconfortável. O atual primeiro-ministro, Andy Burnham, também tem origem operária e foi para Cambridge. Ele diz que não se dava bem com a maioria dos outros alunos, que vinham de escolas de elite. E Burnham é 30 anos mais novo do que eu. Na minha época, eu teria sido um dos raros garotos de origem operária em Cambridge."

Bethell foi para Londres, para o University College London, excelente instituição, onde cursou história na graduação e no doutorado. Seu orientador, Robin Humphreys, especialista em América Latina, não deu muita opção ao aluno, sugerindo que ele estudasse as relações entre a história da África, de um lado, e a de Cuba ou do Brasil, de outro. Na ponta americana, pelo menos, ele podia escolher.

Bethell escolheu o Brasil. Ele tinha 21 anos e, mais importante, a revolução cubana ainda não havia acontecido. Fidel Castro, Che Guevara e companhia desceriam de Sierra Maestra para tomar Havana no ano seguinte. "Estávamos em 1958. Se fosse 1959, eu teria sem dúvida escolhido estudar Cuba", explicou.

Em 1960, Bethell conseguiu uma bolsa para fazer parte da sua pesquisa em arquivos brasileiros. Veio de navio. Muitos anos depois, ao narrar o périplo, o historiador contrastou a quase tortura da travessia em beliches de terceira classe, nos porões da embarcação, com o deslumbre de ver o Pão de Açúcar pela primeira vez, na chegada.

No Rio, foi bater à casa do historiador José Honório Rodrigues, ex-diretor da Biblioteca Nacional e, naquele momento, chefe do Arquivo Nacional. Quem lhe abriu a porta do confortável apartamento em Ipanema foi uma empregada —negra e uniformizada. Disse ao rapaz que "o professor" estava jogando bola na praia.

Honório Rodrigues foi gentil e acolhedor. Naquela mesma noite, o jovem pesquisador inglês participou de um encontro em sua casa "com intelectuais e políticos proeminentes". Durante o jantar, caiu um pé d’água. Na hora de ir embora, Lêda Rodrigues, mulher do historiador brasileiro, ofereceu a Bethell um guarda-chuva.

Em um ensaio autobiográfico, escrito não faz muito tempo, o historiador registrou uma história que Lêda adorava contar, mas da qual ele próprio diz não se recordar com clareza.

De saída, já na porta do apartamento, Bethell teria dito para a anfitriã, que lhe sugeriu proteção contra o aguaceiro: "Eu pertenço à classe trabalhadora do norte da Inglaterra, meu pai é um operário de fábrica, e eu sou um membro do Partido Trabalhista britânico. Eu não uso guarda-chuva".

Na primeira metade do século 19, depois de ter posto fim ao tráfico de escravizados entre a África e as suas próprias colônias, a Inglaterra passou a pressionar os demais países envolvidos no comércio transatlântico de cativos a fazer o mesmo.

A pressão inglesa pelo fim do tráfico marcou o início da existência do Brasil como país independente. Justo quando o plantio de café se ampliava no Sudeste e a compra de escravizados batia recordes, a elite política brasileira assinava tratados com os ingleses prevendo a supressão do tráfico.

Sem poder dizer "não" aos ingleses, mas tampouco dispostos a abrir mão dos escravizados, os dirigentes do novo país tentavam ganhar tempo, enquanto importavam a maior quantidade possível de trabalho forçado da África.

Décadas de leis "para inglês ver" (a expressão vem daí) chegaram ao fim em 1850, quando afinal o governo brasileiro, além de aprovar nova lei vedando o desembarque de escravizados nas praias do país, de fato passou a combater o "infame comércio", interceptando navios, prendendo e expulsando traficantes.

A pergunta de Leslie Bethell em seu doutorado foi essa: por que o tráfico acabou em 1850? O que houve de diferente, então, em relação a todos os outros ensaios de proibição? Por que dessa vez não foi, novamente, só para inglês ver?

Já no século 19 houve debate sobre o assunto. Para muita gente, a resposta parecia óbvia: o Estado brasileiro só agiu quando percebeu que a soberania do país estava em risco.

De 1849 em diante, a Marinha inglesa passou a interceptar barcos que faziam o tráfico na costa brasileira, e não apenas na costa africana. Sem ter condições militares de entrar em guerra com a potência hegemônica da época, o Brasil —ou melhor, a elite escravocrata do país— se dobrou.

Mas as elites locais, em particular os dirigentes políticos, não quiseram admitir a própria impotência. O ministro da Justiça que pôs fim ao tráfico, Eusébio de Queirós, argumentou, na época, que a pressão inglesa apenas tornou mais difícil a execução de uma iniciativa autônoma do Estado brasileiro, uma política de repressão que já estava decidida pelo gabinete ministerial.

"Eles tentaram, de certa forma, valorizar a autonomia da decisão brasileira e dizer, 'não, o Brasil teria feito isso de todo jeito'", explicou o embaixador Rubens Ricupero, autor de "A Diplomacia na Construção do Brasil", obra de referência sobre a história das relações exteriores do país.

O que Bethell fez, ao consultar os arquivos, foi mostrar que a elite dirigente do Brasil, ao propagandear essa versão, adulterava a história.

Com a ajuda sobretudo de documentação guardada na Inglaterra —correspondência diplomática e debates parlamentares locais—, ele deixa claro a importância da pressão militar e diplomática inglesa para o fim do tráfico entre a África e a América do Sul.

Ricupero defende que a tese de doutorado de Bethell foi "determinante, decisiva" para o esclarecimento desse momento central da história brasileira. A análise, "muito completa, muito abrangente", beneficiou-se do acesso à documentação inglesa, observa o diplomata.

O historiador Tâmis Parron, professor da Universidade Federal Fluminense e especialista em temas ligados à política e à escravidão no século 19, afirma que, com sua pesquisa, Bethell "desmontou a representação do fim do tráfico negreiro que havia sido elaborada pelos políticos do próprio Império do Brasil".

O professor da UFF observa, contudo, que há uma lacuna no trabalho de Bethell. Ao se basear sobretudo em documentos ingleses, ele dá menos atenção "às ações dos brasileiros" em sua pesquisa.

Parron se refere não apenas às elites políticas, mas também a proprietários de terras, escravizados e ex-escravizados. Desde os anos 1990, faz-se a crítica à história do fim do tráfico que não leva em consideração o protagonismo dos próprios escravizados, em particular por meio de revoltas e ameaças de sublevações, que teriam contribuído para pôr fim ao comércio de gente em 1850.

"O fim do tráfico não pode ser visto apenas à luz dos debates parlamentares e do segundo andar da política imperial", afirma Flávio dos Santos Gomes, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro e estudioso das revoltas de escravizados.

Gomes diz que é importante considerar o impacto dos temores de revoltas, que cresceram na década de 1840, com a chegada de muitos africanos, e como isso ajudou "a produzir consensos entre fazendeiros e elites políticas para coibir o tráfico", sem abrir mão do comércio interprovincial de escravizados e, claro, da própria escravidão.

Tâmis Parron lembra que em 1848, no auge do medo de revolta de escravizados no Rio de Janeiro, a Assembleia provincial local determinou o aumento das verbas de segurança pública. No ano seguinte, contudo, a situação parecia controlada e não se votou pela manutenção das verbas extraordinárias para a força policial, ele diz.

Embora não se deva ignorar o efeito dos temores de revolta de escravizados, afirma Parron, no fim das contas foi a inédita pressão militar inglesa, em 1849 e 1850, que forçou o governo conservador a combater o tráfico.

Leslie Bethell reage a esse debate de uma maneira que acaba sendo reveladora não só da sua personalidade, mas de sua relação com o Brasil.

O historiador é claramente cauteloso e respeitoso no debate com pesquisadores locais. "Ele tem muito pudor", explica sua mulher, a historiadora pernambucana Maria Eduarda Marques. "O Leslie não quer ficar ensinando para os brasileiros o que a gente deve pensar, o que deve ser ou deixar de ser. Ele é cauteloso, mesmo."

Com prudência e algum humor, Bethell se diz "réu confesso" ("I stand accused") de ser um historiador conservador. "Eu fui treinado por um historiador britânico muito, muito conservador. Com ele aprendi que só se pode escrever sobre o que se encontra nos arquivos."

Como, de fato, o maior conjunto de documentos consultado para sua tese estava em arquivos britânicos, era inevitável que a tese olhasse menos para movimentos sociais da época no Brasil.

Ele reconhece que outros fatores podem ter contribuído para o fim do tráfico. "Muita coisa ajudou. No fim, de toda forma, a evidência que encontrei é a de que terem mandado a Marinha britânica para lidar com o problema foi decisivo."

Ainda com humor, Bethell nota a ironia de se identificar ideologicamente como um "socialista democrático" —ele disse admirar Zohran Mamdani, prefeito de Nova York— e de ser visto como um historiador conservador.

Outras pesquisas suas contribuíram para reforçar essa imagem. Nos anos 1990, Bethell escreveu um artigo ajudando a desmontar o mito de que o imperialismo inglês teria empurrado Brasil e Argentina a fazerem a Guerra do Paraguai, uma visão dominante na esquerda latino-americana nas décadas de 1970 e 1980.

Mais recentemente, analisou as pretensões da Venezuela de Nicolás Maduro sobre pedaços da Guiana, antiga colônia inglesa. Maduro alegava uma ocupação espanhola anterior à da Holanda e da Inglaterra na região de Essequibo, cuja plataforma continental é rica em petróleo. O historiador pesquisou tratados e arbitragens desde o século 19, concluindo que as alegações venezuelanas não paravam de pé.

"Embora politicamente eu me identifique com a esquerda, eu acabo sendo visto no Brasil como um historiador conservador, reacionário, defensor do Império Britânico", disse à Folha.

Do ponto de vista dos historiadores de língua inglesa e espanhola, Bethell foi, por décadas, sobretudo um defensor do Brasil —um militante institucional do espaço que o Brasil deveria ocupar na produção acadêmica e nos debates intelectuais sobre a América Latina.

Depois de ter alargado o espaço dedicado ao Brasil ao editar os volumes de História da América Latina de Cambridge, Bethell propôs à Universidade de Oxford criar um centro de estudos independente, separado do lugar que tradicionalmente cabia ao país, dentro de institutos de estudos latino-americanos.

"Em muitos institutos e centros de estudos latino-americanos os estudos brasileiros costumavam ser encontrados, nas palavras de Walnice [Nogueira] Galvão, professora da Universidade de São Paulo, ‘atrás de uma pequena porta no fim do corredor’", escreveu o historiador, em um relato sobre a concepção do Centro de Estudos Brasileiros em Oxford.

A ideia começou a ganhar vida no início dos anos 1990, quando a fundação ligada ao banco Barings, de Londres, lhe ofereceu recursos para montar o centro. O Ministério das Relações Exteriores deu apoio à iniciativa, no governo Fernando Henrique Cardoso. Bethell lembra que o então embaixador em Londres, Rubens Barbosa, foi decisivo para que o projeto virasse realidade.

À Folha, Barbosa disse que o centro foi uma iniciativa sua: "Eu que criei". Ouvido, Bethell reafirmou a importância do embaixador para a empreitada, mas declarou que a iniciativa não poderia ter sido do diplomata, já que a ideia era inclusive anterior à chegada de Barbosa a Londres. "O que ele estava fazendo em 1992, quando eu comecei o processo com o Barings?", perguntou o historiador.

Na prática, o centro só foi oficialmente inaugurado em 1997. Barbosa e Fernando Henrique trabalharam para obter doações da elite econômica brasileira à instituição. Na foto do almoço inaugural, no Palácio de Buckingham, o historiador marxista Eric Hobsbawm aparece sentado à mesa ao lado do banqueiro José Safra.

Nos anos seguintes, dezenas de intelectuais brasileiros, das mais diversas orientações ideológicas, de Emir Sader a Persio Arida, passaram pelo centro.

Em fevereiro de 1999, Leslie Bethell conseguiu levar Lula para Oxford. Não só Lula, mas parte da intelligentsia do PT, reunida na Inglaterra logo depois da terceira derrota seguida na disputa pela Presidência da República.

Tarso Genro, que mais tarde seria governador do Rio Grande do Sul, e o historiador Marco Aurélio Garcia, futuro assessor especial da Presidência nos governos de Lula e Dilma Rousseff, estavam lá, entre outros intelectuais e dirigentes petistas.

Oficialmente, o seminário pretendia discutir o futuro da esquerda no Brasil, mas a ideia era também saber o que deveria ser feito pelo PT na eleição presidencial seguinte. "Se você perde três eleições, você se faz algumas perguntas bastante sérias, certo?", disse Bethell.

"Eu acho que todo mundo sabia que o problema ali era o seguinte: ‘Nós vamos agora mais para a esquerda, propondo algo ainda mais radical aos brasileiros? Ou é mais seguro se mover para o centro?’".

Dos dias que os petistas passaram em Oxford, o historiador se lembra do embaraço da tradutora com a palavra "bunda", quando Lula disse que "Fernando Henrique tinha a bunda no Brasil, mas a cabeça em Paris", da satisfação do dirigente petista de se encontrar com Hobsbawm, e do fato de que, quando chegou a sua vez de falar, Marco Aurélio Garcia se levantou e discursou por meia hora em francês, diante de uma plateia estupefata.

Foi também provavelmente nessa visita, disse Bethell, que ele pôde dizer a Lula que seu pai, metalúrgico como o brasileiro, também tinha perdido um dos dedos da mão em um acidente de trabalho. Lula, segundo o historiador, se emocionou. "Você sabe como o Lula é. Ele ficou muito impressionado com essa história."

O seminário talvez tenha contribuído para o movimento ao centro que o PT fez nos anos seguintes, o que, por sua vez, teria ajudado na vitória de 2002.

Na lembrança de Tarso Genro, o encontro em Oxford procurou debater "o destino da esquerda" em um momento de "avanço dos governos neoliberais em todo o mundo", nos anos 1990.

"Esse debate foi importante para o Brasil, porque eu me lembro de que, depois desse seminário em Oxford, o Lula começou a discutir de uma maneira mais dura com o setor do partido que achava que não devíamos pagar a dívida externa." Tinha ficado claro, disse o ex-ministro, que era impossível manter essa pauta. Insistindo nisso, "a gente tiraria o Brasil do cenário internacional".

"Então, nós íamos ter que modular as nossas reformas, levando em consideração, em última análise, esses fenômenos novos que estavam ocorrendo", explicou Genro.

O seminário de Oxford, ele disse, foi importante, entre outros debates na mesma época, para adequar o PT "a um novo momento histórico, sob pena de sermos sufocados por essa nova ordem".

Quando Lula tomou posse, em janeiro de 2003, Leslie Bethell estava lá, em Brasília, como convidado.

Pouco tempo depois voltaria à capital, por um motivo mais mundano. As condições para a manutenção do Centro de Estudos Brasileiros em Oxford precisavam ser revisadas a cada cinco anos. Tudo correra bem em 2002, e a avaliação seguinte seria feita em 2007.

O apoio do governo brasileiro ao centro era pequeno, do ponto de vista financeiro, mas decisivo, politicamente —um sinal importante para que a iniciativa privada também fizesse doações.

Na busca por esse apoio, em uma conversa com José Dirceu, então ministro da Casa Civil, Bethell ficou com uma pulga atrás da orelha.

"Marco Aurélio Garcia tinha dito que eu devia falar com o Dirceu sobre a continuidade das verbas para o centro. O próprio Marco Aurélio me levou ao Planalto. Eu conversei com o Dirceu, e ele me disse: ‘O centro é muito bom. Maravilhoso. Parabéns. Mas é também um pouco tucano, não?’."

"Foi então que eu me dei conta de que ele não ia me ajudar", lembrou Bethell. Por meio de sua assessoria, José Dirceu disse não se recordar dessa conversa.

É difícil saber como surgiria a ideia de que Bethell e a instituição que ele liderava pudessem ser mais simpáticos ao PSDB do que ao PT. O embaixador Rubens Barbosa disse acreditar que o fato de o centro ter sido criado e apoiado no governo FHC contribuiu para que o vissem como tucano.

"No segundo governo Lula, a política externa começou a ser muito influenciada por questões ideológicas, como é o caso até hoje", afirmou Barbosa. "Esse é um exemplo. Você acabar com o centro por achar que ele era ideologicamente ligado aos tucanos. Quando não era."

Depois de falar com Dirceu, Bethell continuou a bater às portas de Brasília. Tarso Genro se lembra de ter discutido o assunto com o historiador, quando ele, Genro, era ministro das Relações Institucionais.

"Ele me procurou, de uma maneira um pouco tímida, dizendo que estava empregado numa cadeira na Universidade de Oxford que tinha recursos do Estado brasileiro", lembrou Genro. "E que gostaria de procurar manter um relacionamento com o Brasil, sabendo que o PT era adversário político do PSDB, e portanto adversário do presidente Fernando Henrique Cardoso, que era quem tinha autorizado esse programa brasileiro na Universidade de Oxford. Eu disse que ele não devia temer nada, em absoluto."

Genro não tinha poder de decisão sobre a questão, mas afirma ter procurado Marco Aurélio Garcia, relatando a conversa.

Quem tinha, de fato, poder de manter ou cortar os recursos era o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, com quem Bethell vinha tentando se encontrar, sem sucesso.

"Eu persegui o Celso Amorim. Ele nunca queria falar comigo. Houve algumas ocasiões em que ele evitou me encontrar. E então eles pararam de apoiar o centro. Não renovaram o apoio do governo."

Procurado pela Folha, Celso Amorim, atualmente assessor especial da Presidência, disse que a decisão de interromper o apoio ao Centro de Estudos Brasileiros de Oxford "não se relacionava a nenhum tema de política interna nem a um suposto sentimento ‘antitucano’".

"Como você deve se recordar, naquele período, a prioridade do Brasil era investir na África, ampliar os centros de estudo e de cultura em outras regiões, como a América do Sul, e não havia recursos suficientes para isso. A expectativa era que, no Reino Unido, as empresas privadas que têm presença naquele país pudessem suprir essa menor presença do governo brasileiro."

O Centro de Estudos Brasileiros da Universidade de Oxford foi fechado em 2007. Rubens Barbosa diz que a instituição era muito importante para a projeção externa do Brasil, que deve ser feita também na área acadêmica.

O fim, afirma Leslie Bethell, não foi provocado exclusivamente pela retirada do apoio do governo brasileiro. Outros fatores também pesaram.

O centro perdeu apoio político dentro de Oxford, em parte porque os integrantes do núcleo de estudos latino-americanos não desejavam a continuidade da instituição autônoma dedicada ao Brasil, argumentou o historiador. Bethell estava prestes a se aposentar, o que também dificultou a continuidade do polo de pesquisas.

"O college não estava interessado porque os pesquisadores associados ao centro de estudos latino-americanos não estavam interessados. Eles nunca quiseram aquele centro, e eles sabiam que, quando eu saísse, eles conseguiriam pôr um fim nele." De resto, sem o governo brasileiro, ficou bem mais difícil conseguir outros apoios financeiros.

A aposentadoria compulsória aos 70 anos, que veio simultaneamente ao fim do centro, acabou precipitando a mudança do historiador para o Brasil. Desde então, Leslie Bethell mora no Rio com a historiadora Maria Eduarda Marques.

O casal vive em São Conrado, em um edifício com vista para o mar, não muito distante da favela da Rocinha. Às vezes, ouvem de casa os tiroteios da disputa por controle territorial, no morro.

Bethell por algum tempo frequentou os chás da Academia Brasileira de Letras, da qual se tornou sócio correspondente. Continua a escrever e a participar dos debates do Cebri, o Centro Brasileiro de Relações Internacionais, think tank com sede na cidade.

Não faz muito tempo, Bethell e Maria Eduarda viajaram para Pernambuco. "Eu levei ele agora para o São João da minha terra pernambucana, com fogueira, com quadrilha", contou a historiadora. "Ele gosta muito disso, das pessoas fantasiadas, das comidas. E ele finge que gosta de comer mungunzá."

Na sala de seu apartamento, com as paredes cobertas de arte brasileira, Bethell disse que as decepções com a falta de apoio do governo brasileiro e o fim do centro em Oxford não mudaram suas opiniões e simpatias políticas.

Em uma conversa pouco antes do primeiro turno das eleições de 2026, o historiador disse que, se fosse brasileiro, votaria em Lula e no PT. "Eu continuei a apoiá-los, sem grande entusiasmo, ainda que frequentemente decepcionado."

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