São Paulo O mercado de motocicletas traciona rápido. Em 2026, a previsão é que 2,35 milhões de motos sejam comercializadas no país, renovando o recorde obtido no ano anterior, quando 2,19 milhões de unidades foram emplacadas.
Antes disso, o maior volume anual de vendas havia sido em 2011, com 1,9 milhão de veículos produzidos. Já a produção esperada para o ano é de 2,1 milhões de motocicletas, igualando números de 2008 e 2011, segundo dados da Abraciclo (Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas, Ciclomotores, Motonetas, Bicicletas e Similares), entidade que representa essa indústria.
O setor evoluiu, sobretudo, na esteira da ascensão dos aplicativos de entrega e de mobilidade, que trouxeram novas formas de trabalho para quem encontrava barreiras no mercado formal na última década.
A baixa burocracia para o financiamento das motos, com consórcios representando um terço das vendas desse mercado, e a extinção dos chamados carros populares, com modelos de entrada hoje a um custo acima de R$ 70 mil, também são fatores que levaram à proliferação das motos nas ruas do país nos últimos anos.
Enquanto setores da indústria ligam alerta para a perda da competitividade, o mercado de motos reforça a aposta no país. Um exemplo disso veio na quinta-feira (5), quando a Honda anunciou um investimento de R$ 3,3 bilhões para a produção de motocicletas no país até 2030.
O aporte será usado para a ampliação da capacidade de produção anual da fábrica da empresa em Manaus de 1,6 milhão para 2,3 milhões de unidades em 2029. Também serão criados 2.000 postos de trabalho.
A Honda lidera esse mercado, segundo a Fenabrave (Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores), com uma fatia de 65,6% do volume de vendas de motocicletas de janeiro a outubro deste ano. A segunda colocada nesse quesito é a Yamaha, com 13,8% do mercado.
Instaladas há décadas no Brasil, as duas espalharam concessionárias e investiram em crédito próprio. Hoje, mal conseguem enxergar a concorrência pelo retrovisor: são seguidas de longe por empresas como a chinesa Shineray, com 6% do mercado, e a brasileira Mottu, com 4,8% e tem parceria com a fabricante indiana TVS.
"A motocicleta é um veículo acessível e que proporciona economia de combustível, além de ter um custo de manutenção baixo", diz Sergio Oliveira, diretor-executivo da Abraciclo. "Alguns modelos na faixa de 110 cc (cilindradas) e 125 cc são vendidos a partir de R$ 11 mil. E as motos na faixa de 150 cc e 160 cc, que são as mais adquiridas pelo consumidor, estão na faixa de R$ 20 mil."
O executivo reconhece que parte da retomada do mercado se deve ao avanço dos aplicativos de entrega de comida, como iFood e Rappi, em meio à pandemia de Covid-19. "Hoje, cerca de 22% das vendas do setor são destinadas ao segmento de delivery", diz Oliveira.
O segmento de delivery, inclusive, passa por uma nova onda de investimentos no país, com a chegada do capital chinês de 99 e Keeta, que ainda patinam ao tentar acompanhar a passada do iFood, que anunciou investimento de R$ 24 bilhões até março de 2027.
O setor também se beneficia dos incentivos fiscais do Polo Industrial de Manaus. Hoje, mais de 90% da produção do setor encontra-se ali. O mercado de duas rodas, que inclui a produção de bicicletas, alcançou um faturamento de R$ 44,8 bilhões em 2025, tornando-se o segundo maior na Zona Franca, atrás apenas do mercado de bens de informática (R$ 48,1 bilhões).
Sergio Oliveira, da Abraciclo, diz que o setor já criou uma cadeia de infraestrutura e uma centena de fornecedores naquela região, dificultando a migração da linha de montagem para outros locais do país.
"A gente sabe que a Zona Franca de Manaus tem muitos desafios, entre eles a logística. Nós temos a questão dos incentivos fiscais, sim, mas o principal deles, que é o IPI, é revertido para o consumidor", afirma.
Fundada em 2018, a Watts nasceu como uma opção ligada à sustentabilidade nesse setor. Adquirida em 2022 pelo grupo Multi (ex-Multilaser), a empresa corrigiu a rota e diversificou a frota. Hoje, a produção das motos elétricas do modelo W125 é voltada, principalmente, para empresas com compromisso de eletrificação da frota.
Grandes grupos cervejeiros e de segurança são alguns dos parceiros comerciais. Mas a principal forma de a marca ganhar escala é com os chamados autopropelidos, scooters elétricas que dispensam o uso de CNH (Carteira Nacional de Habilitação) pelo condutor e tem velocidade máxima de 32 km/h.
"A gente foi migrando o nosso portfólio de produtos para esses veículos mais leves, com um custo mais acessível, sem todas as regulamentações, como necessidade de habilitação e de emplacamento. Como o consumidor não paga IPVA, o produto sai mais barato. Hoje, muitos fazem entregas com autopropelidos, até para não tomarem multas", diz Rodrigo Gomes, CEO da Watts.
O executivo diz que a ideia é elevar a produção dos atuais cinco modelos para ao menos oito em 2027. Espaço para crescer existe: o complexo fabril da Watts tem capacidade para produzir cerca de 100 mil unidades por ano, mas menos da metade do potencial de produção é usado atualmente.
Para diminuir a ociosidade da fábrica, a empresa firmou uma parceria para usar o espaço para montar modelos da indiana Royal Enfield.
MOVE BRASIL
O crescimento desse mercado nos últimos anos também é, em parte, fruto de um desejo aspiracional de trabalhadores, sobretudo a população mais jovem, que encontra dificuldade para se encaixar em um padrão de horas trabalhadas exigido pelo mercado formal.
"A moto, muitas vezes, é uma porta de entrada do jovem para uma atividade remunerada", diz Sergio Oliveira.
O economista Marcelo Neri, diretor do FGV Social, aponta a necessidade de o país criar melhores condições de trabalho para essa classe. Nos últimos anos, motoristas de aplicativos convocaram diversas manifestações reivindicando mais clareza sobre taxas cobradas pelas plataformas e apoio em casos de acidentes.
"O trabalhador de moto por aplicativos não tem seguro-desemprego e, principalmente, não tem proteção de saúde. Essas pessoas estão optando pela flexibilidade, até para ter mais renda, mas, de certa forma, também estão preferindo correr riscos, porque a precarização desse segmento em relação a acidentes é muito premente", diz ele.
"Esse não é mais aquele mundo sindical onde o Lula cresceu e prosperou. Há um segmento que atua por conta própria hoje, como MEI [Microempreendedor Individual]. Mas acho que o governo está tateando uma forma de atender a esse segmento."
Um projeto de lei em tramitação na Câmara dos Deputados propõe uma taxa mínima de R$ 8,50 por entrega. As empresas do setor são contrárias à medida, alegando um possível encarecimento do serviço a ser arcado pelo consumidor. Os motociclistas pedem apoio do governo para fazer o texto andar.
O aceno do governo Lula (PT) ao setor veio com a criação do programa Move Brasil este ano, com melhores condições de juros e financiamento para motoristas de aplicativos, entregadores (motoboys e ciclistas) e taxistas.
Em outubro de 2026, o programa Move Brasil Entregadores e Motoapps alcançou a marca de 21 mil motocicletas financiadas, segundo a Abraciclo. O programa financia até 100% do veículo em 48 meses, sem necessidade de entrada por parte do cliente.
Além das montadoras, plataformas como 99 e iFood fazem parte da iniciativa.
A 99 iniciou uma parceria com a Riba para facilitar a aquisição de 500 scooters elétricas por motoristas elegíveis ao Move Brasil. A empresa também tem acordos com Galgo e Vammo para financiamento e aluguel em condições especiais de motos elétricas.
Ainda, a 99 investiu mais de R$ 45 milhões para fazer parte do Fundo de Eletromobilidade de Duas Rodas da YvY Capital, fundo que busca viabilizar a comercialização de 600 mil motos elétricas até 2035.
Com 600 mil entregadores ativos, o iFood fez uma parceria com a Caixa Econômica Federal e o Banco do Brasil para facilitar o acesso dos bancos aos dados dos entregadores. A empresa também tem uma parceria exclusiva com a Mottu, montadora que também atua como locadora em 200 cidades do país.
Nesse modelo, há desconto e melhores condições de financiamento para aquisição de motos novas ou usadas da Mottu. Além disso, lançou o programa Minha CNH iFood, em que a plataforma arca com cerca de 90% do custo com a CNH categoria A para entregadores que usam bicicletas atualmente. A empresa quer ter pelo menos 2 mil formadas pelo programa em 2027, com a meta de que 40% sejam mulheres.